Estamos a poucos dias do segundo turno das eleições, diante de dois projetos de sociedade que, a meu ver, apresentam perspectivas profundamente distintas sobre o futuro que queremos construir.
Peço licença para, neste momento, falar enquanto pessoa, mulher, trabalhadora e cidadã que acredita na democracia, na justiça social e na construção de uma sociedade livre de todas as formas de discriminação e preconceito.
Antes de pensarmos em quem votar, considero importante nos perguntarmos: que sociedade queremos defender? Quais direitos conquistamos com muita luta? Que projeto de país dialoga com os princípios que defendemos enquanto categoria profissional e enquanto sociedade?
Nós, arquivistas, trabalhamos diretamente com a informação, com a memória, com o patrimônio documental e com a garantia do acesso à informação. Nosso trabalho também está relacionado à preservação da memória social e ao fortalecimento da cidadania. Por isso, não podemos ser indiferentes aos rumos da democracia e aos projetos de sociedade que estão colocados.
Somos também pessoas atravessadas por diferentes realidades: mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIPN+, pessoas periféricas, trabalhadores e trabalhadoras, pessoas com deficiência e tantos outros sujeitos que vivenciam, de diferentes formas, as desigualdades e as estruturas de opressão presentes em nossa sociedade.
Muitos dos direitos que hoje temos não foram concedidos espontaneamente. Foram conquistados por meio de organização, mobilização e luta social. E é justamente por isso que precisamos estar atentos aos riscos de retrocessos.
Tenho divergências e críticas em relação a diferentes políticas e práticas do atual governo. Acredito que ainda temos muito a avançar, inclusive em pautas que considero fundamentais. A divergência faz parte da democracia e é necessária para que possamos tensionar, cobrar e transformar aquilo que precisa ser transformado.
Entretanto, diante da conjuntura que vivemos, compreendo que o projeto atualmente representado pelo governo Lula ainda é aquele que melhor dialoga com os princípios de defesa da democracia, dos direitos sociais, da equidade, da diversidade e da redução das desigualdades que considero fundamentais.
Por isso, faço um chamado à reflexão e ao voto consciente. Não se trata de abrir mão das nossas críticas, das nossas pautas ou da nossa capacidade de cobrar avanços. Pelo contrário: trata-se de reconhecer o momento histórico que estamos vivendo e compreender que defender a democracia também significa defender as condições necessárias para continuarmos lutando por uma sociedade mais justa.
Como arquivistas, sabemos que a memória não é neutra. Sabemos o que significa viver períodos em que direitos, liberdades e instituições democráticas são ameaçados. Sabemos também a importância de preservar os registros que permitem à sociedade conhecer seu passado, compreender o presente e construir outros futuros.
Neste momento, portanto, considero fundamental que cada um e cada uma de nós reflita sobre o país que deseja para si e para as próximas gerações.
Esta é uma manifestação pessoal, mas também um convite coletivo: que possamos nos posicionar, dialogar, participar e nos movimentar em defesa da democracia, dos direitos humanos, da equidade e de uma sociedade em que todas as pessoas possam existir com dignidade.
Que nosso voto seja consciente.
Que nossa memória não seja apagada.
Que nossas conquistas não sejam colocadas em risco.
E que continuemos em movimento na construção de uma sociedade mais democrática, justa e plural.
